Era dezembro de 2005. Nevava abundantemente em Minnesota. Eu estava devastada por causa de um coração partido. Morrendo de saudade da minha família. Minha conta bancária zerada. Todos os meus amigos fora da cidade, ou fazendo viagens mirabolantes pela Europa, Caribe, Vegas ou de volta ao Brasil para passar o Holiday com a família.
A minha única companhia era a minha amiga Gabriela que eu conhecera há apenas dois meses e que passava pelos mesmos problemas, a exceção do coração partido (por ser muito bem resolvida) e da falência (por ser muito bem controlada).
Chegou o dia 24. Decidimos então que faríamos a nossa ceia de Natal, ainda que só nós duas. Pusemos música alta, dançamos, eu bebi minhas cervejas e fomos ao Cub Foods comprar tudo, haja vista que só tínhamos milho e salsicha em casa.
Quando estávamos atravessando a rua vimos as portas do supermercado se fecharem. Ele só funcionaria até as 16:00 e estávamos 1 minuto atrasadas. Shit! Não adiantou nem choro nem vela.
Na volta pra casa, resolvemos entrar numa Igreja Presbiteriana. “Ahhh, esse povo é solidário, claro que vai ter festinha aí!” Cantamos umas musiquinhas, recebemos uns abraços... mas festa mesmo não teve.
Enfim chegamos em casa, muito desapontadas. Nosso Natal seria isso?
De repente, não mais que de repente toca o telefone. Era a Tammy, uma senhora que trabalhava com a Gabi que a convidava pra cear com sua família. Fui de sapo.
Chegamos em sua casa e encontramos tudo muitooo simples, uma casa pequena, feia, não tinha nem cadeira. Mas não me lembro de um lugar em que tenha sido tão acolhida, que tenha me sentido tão bem. A Tammy era divorciada. Sua filha era rebelde e não saiu do quarto pra cear. O filho da Tammy era um fofo, extremamente educado. Era um office boy e engravidou a namorada. Eles passavam por uma enorme crise emocional e financeira e a sua futura esposa também não quis passar o Natal com ele.
Conclusão: estávamos os quatro, cada um com seus problemas, seus dramas pessoais, suas frustrações, seus sonhos perdidos, sentados à mesa dividindo mais que uma refeição.
Na volta pra casa, o filho da Tammy fez questão de passear por toda vizinhança para que pudéssemos ver as luzes de Natal. Ele apesar de toda dor que vivia no momento enxergava beleza em tudo e queria compartilhar com a gente o sentimento bom que o Natal lhe trazia. O carro ia devagar por causa do excesso de neve, e realmente a câmera lenta me deu a impressão de estar em um filme.
De volta ao lar, eu e Gabi terminamos a noite com sessão de fotos, sorrisos, abraços, lágrimas e a promessa de que faríamos uma festa de Natal em Abril, quando todos os amigos estivessem presentes.
O que eu não sabia era que aquele foi o Natal mais lindo da minha vida. O único em que eu realmente enxerguei o seu verdadeiro significado. Ontem o Padre Fábio disse uma frase muito linda: “Celebrar o Natal é conceder à sua alma a oportunidade de se sentir recém nascida”.
Naquele Natal, dei à minha alma essa chance e finalmente pude nascer de novo. Eu me reconciliei com meu passado, perdoei o que nem precisava ser perdoado. Eu aceitei as minhas dores. Eu decidi que queria ser feliz e que por mais que as coisas estivessem difíceis elas iriam melhorar. Apesar de tudo há tanta vida, tanta beleza, tanto amor lá fora. Um sopro de fé e esperança passou por mim e me renovou.
Se eu pudesse dar um presente a vocês meus amigos, eu daria uma Gabriela pra cada um. Um amigo de verdade, com quem vocês pudessem sempre contar. Alguém que traga Deus para mais perto de vocês. Que acredita no que você tem de bom, que divide, que chora junto, mas que te traz pra realidade e mostra o colorido do mundo através de pequenas coisas. Alguém que te ensina que pra ser feliz basta estar vivo! E que o Natal se faz é dentro da gente.



